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segunda-feira, 25 de agosto de 2014

O casebre no bairro triste

Por Rodrigo Amém

A pior coisa de ser criança largada é que ninguém liga. A melhor coisa de ser criança largada é que ninguém liga. Enquanto não tinham nada, dormiram por aí, nos escombros da cidade. Edgard lavava vidraças, fazia entregas, carregava pacotes. Com o dinheiro, comprava comida, água e remédio para as feridas de Lúcia. A ex-noviça ardia de febre e medo, mas estipulou condições. Das feridas, cuidava ela. Não permitira que Edgard a visse exposta, nua, mutilada. 

O sol se punha entre as ferragens, o vento esfriava a cada segundo. Edgard preparava um fogo dentro de um vagão sem rodas. 

- Quer chegar mais perto? – o menino perguntou.

Lúcia não respondeu. Não porque não quis. A voz falhou, tremida, seca. Edgard foi até ela. 

- Toma. – A canequinha com água tocou os lábios rachados de Lúcia. 

- Você não devia ter feito aquilo – disse Edgard. 

- Me ajuda...– ela respondeu, pedindo para levantar.

Aos poucos, Edgard levantou Lúcia como quem segura um tecido frágil. Cada centímetro era saudado com grunhidos sussurrados.  Finalmente de pé, Lúcia começou a corrigir sua postura arqueada. Edgard imaginava as feridas recém fechadas se rasgando naquele exercício de orgulho despropositado. Uma lágrima correu do rosto da garota. Ela se virou, pegou alguns restos de legumes, uma lata com água e começou a fazer uma sopa. 

Os dois comeram em silêncio. Ainda repetiriam esse ritual por muitas noites. 

Lúcia virou domestica, Edgard entregava jornais. Aonde quer que a conveniência da mão de obra barata se sobrepunha a repugnância da exploração do trabalho infantil, Lúcia e Edgard prosperavam, entre um tapa e outro, um abuso e outro, uma esmola e outra. E juntos alugaram um barraco num bairro triste. 

Edgard tinha quase treze quando Lúcia quebrou sua promessa. Ele abriu a porta e a encontrou se lavando, sob a luz do lampião. Ela parou. Os olhos confusos do garoto brilharam. Lúcia respirou fundo e deixou que a chama repousasse sobre a cicatriz. Edgard observou o corpo da mulher. O beijo do terço cobria Lúcia do peito ao ventre. Ao seio mutilado faltava um mamilo. O outro pousava como a joia imponente de uma coroa. A surpresa, para Edgard, não era a cicatriz, que ele imaginara até pior. Mas as formas sinuosas esculpidas ao redor dela, como uma declaração de resistência, coragem e força. Edgard não conseguia não memorizar cada centímetro daquela escultura que iluminava a penumbra do casebre no bairro triste. Então Lúcia lhe estendeu a mão. E nada mais foi como antes.



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